Rotina de uma escola Waldorf

Gostaria de compartilhar aqui como é a rotina de um jardim de infância Waldorf. Nesse caso, o vídeo abaixo mostra a escola Nokken, na Dinamarca, criada pela educadora Helle Heckmann.

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O Exército de crianças zumbis

“A criança precisa dormir tanto porque é, em sua totalidade, um órgão sensório e ainda não suporta o mundo com as suas impressões ofuscantes e sonoras. Assim como o olho se fecha para se proteger da luz ofuscante do sol, a criança, sendo toda ela um órgão sensório, precisa se isolar do mundo, ou seja, precisa dormir muito.” Rudolf Steiner

Sono

Uma das principais queixas recorrentes que ouço de amigos que são pais é em relação ao momento de acordar seus filhos. São relatos sobre crianças que acordam mal-humorados, sem energia, com dificuldade de levantar. Os escassos minutos entre o despertar e o momento de sair viram uma batalhar par conseguir fazê-los trocar de roupa e aprontar-se para a escola. Eu mesma vivencio essas cenas de comédia pastelão em que o momento idílico imaginado por mim transforma-se em uma corrida contra o tempo em que me transformo em uma desesperada para conseguir arrumar minha filha apressadamente antes de levá-la ao transporte escolar.

Mas nem sempre é assim. Percebo que quando permito que minha filha tenha longas horas de sono, toda a rotina matinal é feita de forma agradável, tranquila, com sorrisos e tempo para uma rápida brincadeira, que pode ser cantar uma canção ou inventar uma estória rápida.

A privação de sono infantil tem sido cada vez mais comum nas famílias. Muitos vivem uma rotina atribulada, em que os pais chegam em casa tarde da noite para brincar com seus filhos. Distrações como jogos eletrônicos ou até mesmo o desenho da famosa porquinha que começa por volta das 20h30, são alguns dos motivos que fazem com que as crianças durmam cada vez mais tarde.

O que precisamos nos atentar é que o sono é vital para o desenvolvimento físico e espiritual de nossos filhos. De acordo com Rudolf Steiner, a criança precisa dormir longas horas porque até os sete anos ela é em sua totalidade um órgão sensório. “A criança precisa dormir tanto porque é, em sua totalidade, um órgão sensório e ainda não suporta o mundo com as suas impressões ofuscantes e sonoras. Assim como o olho se fecha para se proteger da luz ofuscante do sol, a criança, sendo toda ela um órgão sensório, precisa se isolar do mundo, ou seja, precisa dormir muito.”

E quantas horas são o suficiente? Na opinião da educadora Waldorf e consultora do desenvolvimento infantil na primeira infância, Helle Heckmann, o mínimo são 12 horas por noite. Em entrevista à uma rádio americana, ela afirmou que essa é uma regra da qual não podemos prescindir. Para ela é preciso trazer de volta a simplicidade, o senso comum. Segundo ela, coisas simples como fazer com que as crianças se movimentem, corram, fazem com que as crianças tenham sono à noite. Todos nós temos exemplos de noites em que nossos filhos simplesmente desmontaram após um dia repleto de brincadeiras físicas. Helle detalha mais o assunto em seu livro “The Five Golden Keys”Link para loja virtual de Helle Heckmann

Para ajudar no processo de fazer com que nossos filhos durmam as 12 horas necessárias para o seu bom desenvolvimento, a educadora Caroline Von Heydebrand, autora do livro “A Natureza anímica da criança”, recomenda instituirmos um ritmo diário em nossa rotina, que inclui o ritual para dormir. Ela afirma “O que as conduz de maneira sadia e digna ao portal do sono são contos, lendas, uma estória contemplativa, mas não moralizante, uma canção, uma melodia tranquila, um verso tendo o caráter de uma oração que liga a alma da criança com os seres divinos. Há crianças com as quais convém fazer uma retrospectiva sobre os atos e fatos do dia findo – sem moralizar, as com serenidade e simpatia para com tudo o que nesse dia foi ou não alcançado. ”

O ritmo diário de fazer as mesmas atividades sempre na mesma hora traz calma para a criança e a prepara para o que vem em seguida. “Reviver permite o aprofundamento das emoções ao mesmo tempo em que possibilita a criança antever a experiência, deixando-a mais segura e tranquila”, explica Caroline.

Qual é o seu ritual para colocar seu filho para dormir? Adoraria conhecê-los.

Brinquedos educativos? Não, obrigada

“As atividades realizadas pela criança devem se basear diretamente nos afazeres da vida concreta. Não podem ser atividades inventadas. No que diz respeito ao jardim de infância, a necessidade da criança de imitar a vida é o que realmente importa. O trabalho de organizar a vida de modo a realizarmos diante da criança e da maneira correta o que convém às necessidades da vida e os impulsos provenientes da vontade de atuar do seu próprio organismo é uma grande tarefa, um trabalho pedagógico imensamente significativo”

CEW Alecrim Dourado
Um dos espaços de brincadeira do CEW Alecrim Dourado, de São Paulo

Que a brincadeira é uma das melhores formas da criança se desenvolver, ninguém tem dúvida. Por meio delas, os pequenos aprendem a coordenação motora, a socialização, vivenciam a fantasia, entre outras coisas.

E não faltam estímulos para isso. A indústria do brinquedo educativo é altamente desenvolvida, com diversas opções para diferentes faixas etárias. Podemos escolher entre aqueles que estimulam conexões neurais, o desenvolvimento cognitivo e físico, ensinam tarefas do cotidiano, o alfabeto, coordenação motora fina, lateralidade e porque não, o primeiro acesso a outro idioma.

Mas será que toda essa parafernalha é necessária? Rudolf Steiner explica que até a segunda dentição, a criança é essencialmente guiada pela imitação. Ele afirma “Não podemos subestimar as influências bem sutis que atuam na criança a partir do ambiente em que vive e que a levam a sentir, mediante a mera observação a necessidade de imitação. Trata-se do que há de mais importante para o desenvolvimento humano nos anos da infância. ”

E o que isso significa? Que a criança não precisa de brinquedos sem significado intrínseco. Que ela não necessita de elementos artificiais para se desenvolver da melhor maneira possível. Muito pelo contrário. Imitar as atividades dos adultos e seus trabalhos é tudo o que ela quer.

Por isso, no jardim de infância Waldorf, as “jardineiras”, como são chamadas as educadoras, se comportam da maneira mais natural possível, para que a criança receba estímulos para imitar o que elas fazem. “Não é necessário ir de uma criança à outra para ensiná-la o que fazer. Ela ainda não quer seguir instruções de que lhe dizem para fazer. Ela quer imitar o que o adulto faz”, ensina Steiner.

“As atividades realizadas pela criança devem se basear diretamente nos afazeres da vida concreta. Não podem ser atividades inventadas. No que diz respeito ao jardim de infância, a necessidade da criança de imitar a vida é o que realmente importa. O trabalho de organizar a vida de modo a realizarmos diante da criança e da maneira correta o que convém às necessidades da vida e os impulsos provenientes da vontade de atuar do seu próprio organismo é uma grande tarefa, um trabalho pedagógico imensamente significativo”, de acordo com Steiner.

Quer dizer que não devemos dar nenhum brinquedo à criança? Não penso assim, mas isso já é conversa para um próximo post.

“Não podemos subestimar as influências bem sutis que atuam na criança a partir do ambiente em que vive e que a levam a sentir, mediante a mera observação a necessidade de imitação. Trata-se do que há de mais importante para o desenvolvimento humano nos anos da infância. ” Rudolf Steiner

Lindas tradições Waldorf para celebrar aniversários

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Eu adoro a celebração do aniversário. Tenho as melhores lembranças da minha mãe, tia e madrinha preparando minhas festinhas, que incluíam delicados enfeites de mesa preparados artesanalmente por elas.

Hoje em dia, procuro recriar esse ambiente de celebração e alegria nos aniversários de minha filha. Mais do que lindos presentes, quero que ela ganhe memórias indeléveis desses momentos em que o seu dia era realmente comemorado como uma data especial em que ela era o centro das atenções, não os presentes ou a decoração da festa.

Na escola Waldorf, os aniversários também são uma ocasião especial. A criança nesse dia usa uma coroa de feltro, feita caprichosamente pela professora, e antes de partir o bolo (simples, levado de casa) a professora conta uma estória sobre sua chegada à Terra. Esse conto tem várias versões e podemos acrescentar detalhes para torná-lo mais personalizado.

Além dessa tradição, cuja estória vocês verão abaixo, pesquisei outras duas que considero muito bonitas.

A primeira delas é um poema especial para ser dito na noite anterior ao seu aniversário e que homenageia a última noite em que a criança terá aquela idade.

“Quando eu disser a minha oração da noite, e minhas roupas estiverem  dobradas na cadeira, e minha mãe desligar a luz, eu ainda terei ___ anos esta noite. Mas desde o raiar do dia, antes das crianças se levantarem para brincar e a escuridão se transformar em ouro, amanhã, eu vou ter___ anos de idade. ___ Beijos quando eu acordar, ___ velas em meu bolo.”

A segunda é o anel de aniversário,

riginalmente proveniente de tradições alemãs . Esse círculo de madeira contém diversos furos para que sejam encaixadas o número de velas correspondente ao aniversário da criança e objetos de madeira que lembrem algum fato memorável daquele ano. Os familiares se reúnem ao redor do círculo e compartilham momentos de cada ano. À medida que os anos passam, mais velas são acrescentados e os objetos são movidos para o centro do anel, como uma lembrança do passado. Também é possível preencher o círculo apenas com velas.

Bridge
Na estória, a criança atravessa a ponte de arco-íris para chegar aos seus pais

 

A Estória da ponte de arco-íris

Era uma vez uma pequena criança chamada ____________ que morava no paraíso e era muito feliz lá.  Ela admirava as lindas cores e ouvia maravilhosas canções, e era lá onde ela pertencia. Mas um dia, as nuvens se abriram no paraíso e _________ viu a linda terra verde abaixo, com todas as pessoas felizes brincando e trabalhando e de repente ela sentiu uma enorme vontade de ir até lá e ver como era a vida na Terra. Ela viu todas as cores do arco-íris, borboletas visitando as flores e pássaros voando. Eles pareciam estar acenando para ela. Ela viu pescadores no mar e todas as diferentes plantas que cobriam a terra. Viu crianças subindo em árvores, correndo, pulando e andando entre areia e folhas. Tudo era tão bonito.

Então ela disse para seu anjo da guarda: “Por favor, posso ir para a Terra agora?” Mas o anjo olhou para ela e disse “Não, ainda é muito cedo. Você precisa esperar um pouco mais”. Então a criança se foi feliz e logo esqueceu sobre a Terra. Então um dia ela novamente teve uma rápida visão da Terra através das nuvens. Ela viu mães e pais trabalhando, professores, engenheiros, escritores e fazendeiros. Viu pais dando amor aos seus filhos. Ela também viu uma linda mãe com amor e um enorme desejo em seu coração de ter uma criança. Nesse momento ela perguntou ao anjo: “Posso ir para ela?”

O anjo disse: Você precisa ir para a terra dos sonhos primeiro”

Na próxima noite, a pequena criança teve um sonho. Sonhou que tinha encontrado um homem e uma mulher e eles lhe estenderam seus braços e lhe pediram para que  se tornasse sua criança. Ao contar o sonho para o anjo, ele disse: “Agora é hora de você ir”

Então a criança perguntou: “Posso ir agora?”

-“Você verá”, disse o anjo.

Naquela noite a criança foi dormir na terra dos sonhos e durante dez luas, ele navegou em seu barco. E no final daquele período, uma linda ponte de arco-íris se estendeu do paraíso até a Terra por onde a criança veio como um pequenino bebê e escorregou para os braços de seus pais. Eles  olharam maravilhados para esta nova vida e disseram: “Nós lhe daremos o nome de: ________________

 

Filhos emocionalmente saudáveis

A maneira como nos relacionamos com a criança determina não só os aspectos emocionais, mas afeta também sua saúde. Steiner afirma que tudo o que fazemos perto de uma criança causa uma impressão sobre ela, determinando toda a sua disposição para o desenvolvimento de boa saúde ou de doenças.

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Desde que me tornei mãe há pouco mais de três anos, tenho a oportunidade de testemunhar o milagre da vida. Em um curto espaço de tempo meu bebê, que apenas era guiado pelas suas necessidades básicas vitais, virou uma criança alegre e ativa, com opiniões próprias e desejos.

Sempre soube que os estímulos certos na primeira infância, que vai de 0 a sete anos, eram fundamentais para o desenvolvimento infantil. Mas também me questionava: o que posso fazer para cultivar os germes de um ser humano emocionalmente saudável? Como ajudá-lo a se desenvolver de maneira holística?

Foi quando encontrei a pedagogia Waldorf e a Antroposofia que comecei a ter as primeiras respostas para os meus questionamentos. Segundo Rudolf Steiner – filósofo austríaco e criador da Antroposofia e da pedagogia Waldorf -, entre o nascimento e os sete anos, estão presentes no organismo, de maneira imperceptível, as forças que posteriormente, a partir do sétimo ano, se manifestarão no relacionamento e no contato com o mundo como forças anímicas.

A maneira como nos relacionamos com a criança determina não só os aspectos emocionais, mas afeta também sua saúde. Steiner afirma que tudo o que fazemos perto de uma criança causa uma impressão sobre ela, determinando toda a sua disposição para o desenvolvimento de boa saúde ou de doenças.

Essas constatações me levaram a descobrir um universo totalmente novo, onde verifico que não só o alimento correto, carinho e estímulos físicos bastam para a formação de uma pessoa saudável. Muitos outros aspectos são levados em conta. Detalhes como a hora certa para se começar a andar, quando a criança deve começar a aprender a ler e escrever ou o porquê de lermos contos de fadas para os pequenos, possuem implicações que serão sentidas até mesmo décadas mais tarde.

O que tenho descoberto nesses estudos me fascina e me motivou a criar esse blog. Desejo compartilhar com outras famílias tudo o que tenho encontrado e espero contribuir para essa jornada fantástica que é a de educar um filho para a vida.