Educamos nossos filhos para o vestibular ou para a vida?

“É preciso deixar a criança, o maior tempo possível, na vivência suave, sonhadora, baseada na imagem, vida, ou seja, o maior tempo possível na imaginação, numa consciência não intelectualizada. Quando permitimos o fortalecimento do organismo infantil mediante o ambiente não intelectualizado, a criança consegue, num momento posterior, assimilar de maneira correta, a cultura intelectualista”, recomenda Steiner.

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A metodologia Waldorf segue os preceitos de que o ser humano se desenvolve em setênios. Segundo essa lógica, a criança só começa a ser alfabetizada a partir dos sete anos, ou seja, quando começa o segundo setênio.  Essa aparente demora no processo educacional levanta uma série de questionamentos e não raro ouvimos pessoas dizerem que um determinado aluno “já” tem oito anos e ainda não sabe escrever ou que a escola Waldorf só é boa para a educação infantil, pois não prepara o aluno para a vida acadêmica.

A explicação para esse fato veio do próprio Rudolf Steiner, que fala que a pedagogia Waldorf leva em consideração toda a vida da criança ao ensinar e não somente aquele instante em que a alfabetização acontece. Segundo Steiner, quando a criança começa a aprender a escrever, ela primeiramente desenvolve as formas das letras por meio de alguma atividade artística que traga contentamento interior. A euritmia é uma das maneiras das crianças realizarem esse trabalho.

Steiner afirma que “A razão para nossas crianças aprenderem a escrever e ler um pouco mais tarde é que se nós levarmos em consideração a natureza da criança, ler deve vir depois de escrever. Uma coisa essencial no nosso método educacional é que nós mantemos a vida inteira da criança em mente. Nós sabemos que se apresentarmos à criança alguma coisa quando ela tenha sete ou oito anos, isso deve ser feito de forma que essa coisa cresça com criança, de modo que permaneça com a pessoa em questão quando ela tenha trinta ou quarenta anos, e até mesmo para o resto de sua vida.”

Segundo ele é importante que a criança viva de maneira intensa a sua infância, sem racionalizar o conhecimento. “É preciso deixar a criança, o maior tempo possível, na vivência suave, sonhadora, baseada na imagem, vida, ou seja, o maior tempo possível na imaginação, numa consciência não intelectualizada. Quando permitimos o fortalecimento do organismo infantil mediante o ambiente não intelectualizado, a criança consegue, num momento posterior, assimilar de maneira correta, a cultura intelectualista”, recomenda Steiner.

Antes de colocar minha filha em uma escola Waldorf, também tinha medo de colocá-la em uma instituição que não a preparasse para a vida, que a deixasse em desvantagem quando o momento profissional se aproximasse (hoje já penso bem diferente daquela época e já não tenho a cabeça voltada para o vestibular ou o emprego).

Para sanar essas dúvidas, nada melhor do que conversar com uma ex-aluna Waldorf. Por sorte eu conhecia uma profissional super competente com a qual eu tinha trabalhado e que tinha estudado quase todo o período escolar na Viver Escola Waldorf de Bauru. Ela se graduou em um dos cursos mais cobiçados na USP e seus irmãos, que também estudaram na mesma escola, se graduaram na Unesp (em exatas e humanas respectivamente). Tivemos um bate-papo muito proveitoso. Na época, sua mãe, que era ex-professora Waldorf me deu vários insights sobre o funcionamento da escola e o desenvolvimento do aluno. Saí de lá mais certa do que nunca de ter escolhido a melhor metodologia para a vida da pequena.

Abaixo eu coloco um vídeo que mostra ex-alunos Waldorf e pais de alunos Waldorf que são expoentes nas profissões em que atuam. Vale a pena conferir.

Como a escola pode desenvolver o ser humano?

Qual é o papel da escola e dos educadores na sociedade? eles são responsáveis por moldar ou transformar um indivíduo? Seria possível olhar para um pensador, um grande cientista ou filósofo e dizer que a escola o forjou assim?

Para Rudolf Steiner, a escola pode fazer muito pouco para influenciar o que é específico de um indivíduo, do que ele é capaz de aprender com base em suas habilidades particulares. Mas um verdadeiro educador oferece as condições para que ele se desenvolva. “Não podemos fazer nada em relação ao que a pessoa se torna por meio de sua própria natureza, pois outros fatores são determinantes para isso. O que nós podemos fazer é remover obstáculos para que os indivíduos encontrem sua força interior para realizarem plenamente seus potenciais”, ensina Steiner.

Hoje eu gostaria de compartilhar um documentário brasileiro produzido por Veronica Marchi Costa – Waldorf: ensino e aprendizagem para além dos muros da escola. Ele foi gravado na Viver Escola Waldorf de Bauru e mostra  a sua rotina em seus diferentes setênios, explica o porquê de cada atividade, de acordo com a idade, como as diferentes disciplinas escolares são interligadas por meio de diferentes vivências e como essa pedagogia permite o verdadeiro desabrochar do ser humano.

Como criar o boneco ideal para sua criança

As bonecas formam o cérebro da criança do mesmo modo como trabalha um escultor, cujas mãos ágeis, sensíveis, permeadas pelo espírito e pela alma do artista, transformam o material escolhido em obra de arte, em que tudo é atividade plasmadora e desenvolvimento orgânico. A criança contempla a boneca feita de pano, e desta atividade surgem forças formativas em seu interior, verdadeiras forças formativas provenientes do sistema rítmico e atuantes na configuração do sistema nervoso central.

ciranda de bonecas Waldorf
Bonecas Waldorf feitas por pais amorosos durante a oficina ministrada por Nina Veiga no CEW Alecrim Dourado

 

Os bonecos são indissociáveis da infância. São peças que representam muito mais do que um brinquedo. Muitas vezes se tornam o melhor amigo da criança e não raro a acompanham até a idade adulta.

Mas esqueça aquelas bonecas lindas ou “exóticas” se você estiver preocupado com a formação do corpo físico e do cérebro infantil. Tudo o que ela precisa é de uma boneca rústica, que pode ser feita por você mesmo.

Rudolf Steiner nos explica que quando oferecemos à criança no primeiro setênio a boneca feita com um lenço, as forças plasmadoras, provenientes do organismo humano – principalmente do sistema rítmico, ou seja, da respiração e da circulação sanguínea – chegam suavemente ao cérebro para exercer a sua função.

“Elas formam o cérebro da criança do mesmo modo como trabalha um escultor, cujas mãos ágeis, sensíveis, permeadas pelo espírito e pela alma do artista, transformam o material escolhido em obra de arte, em que tudo é atividade plasmadora e desenvolvimento orgânico. A criança contempla a boneca feita de pano, e desta atividade surgem forças formativas em seu interior, verdadeiras forças formativas provenientes do sistema rítmico e atuantes na configuração do sistema nervoso central” afirma Steiner.

E como deve ser feita essa boneca? Nada mais do que um pedaço de pano amarrado na parte superior, de onde surgirá a cabeça, sem qualquer traço fisionômico. Manchas ou pontinhos para marcar os olhos e a boca são suficientes. “Nesta boneca teremos tudo o que a criança consegue entender, e o que a criança também consegue amar. Na boneca encontram-se, de maneira bem simples, as características do corpo humano do único modo que a criança dessa idade consegue apreender”, explica Steiner.

Boneca feita com lenço
A Clarisse já está esfarrapada, mas tem lugar cativo nas brincadeiras da minha filha

De acordo com Steiner, dentro da criança atua uma força plástica e o que ela realmente vivencia pode ser visto mediante a boneca feita um lenço pintado com um par de manchas de tinta. Ele nos ensina que tudo o que provém dos arredores da criança e vem ao seu encontro passa por um processo formativo no seu interior, que inclui a formação dos órgãos.

Já as bonecas finamente acabadas, industrializadas, produzem o efeito contrário no cérebro, que recebe esse estímulo como se fossem “chicotadas”.  “As forças provenientes do sistema rítmico, ou seja, as forças formativas, que provêm dos sistemas respiratórios e circulatório e que configuram o sistema nervoso central, atuam constantemente como se fossem chicotadas. Tudo o que a criança ainda não consegue entender chicoteia o cérebro. Sim, o cérebro está sendo terrivelmente chicoteado, espancado”, adverte Steiner.

Steiner analisa os efeitos negativos desse tipo de brinquedo na formação da criatividade: “Quando a criança ganha uma boneca acabada, impedimos que ela desenvolva a atividade dentro da sua alma. Ela precisará abafar a imaginação tênue que está despertando, a fim de focalizar o seu olhar em detalhes total e esteticamente definidos. Assim interrompemos completamente o processo infantil de criação de vínculos com a vida, pois a atividade própria em seu interior é retida.”

Essas análises de Steiner me levam à minha infância e me fazem recordar das bonecas que minha avó me fazia utilizando uma colcha chenille. As minhas lembranças mais antigas datam de quando eu tinha três ou quatro anos – minha avó morreu quando eu tinha cinco anos – e eu me lembro de olhar aquela colcha dobrada e realmente visualizar um bebê enrolado na manta. Ficava encantada pensando como ela conseguia fazer aquilo.

Essas memórias nunca saíram de minha mente e de todas as bonecas que tive, elas sempre foram as minhas favoritas. Não entendia como minha avó era capaz de fazer aquele bebê, até que há sete anos, em uma viagem a Santa Catarina, eu desvendei o segredo.

Abayomis
Essas abayomis foram feitas por mim e me recordam a minha infância

Aprendi em uma oficina de artesanato em um hotel que essas bonecas na verdade se chamam Abayomi. Elas eram feitas por escravos para seus filhos, que utilizavam pedaços de suas roupas para confeccioná-las. Essa história me emocionou muito e eu pensei nas tias paternas ou o pai de minha avó fazendo essa boneca para ela (sua mãe era italiana).

 

Nessa época minha irmã estava grávida e eu na mesma hora pensei em fazer abayomis pequenas como lembranças de maternidade. Agora eu mesma posso fazer abayomis para a minha filha.

 

Atualmente também temos bonecas de inspiração Waldorf que são feitas de materiais naturais, recheadas com lã de carneiro e que além de trazerem uma sensação táctil muito boa, não afetam a criatividade infantil, pois não possuem rosto definidos.  Para quem tiver interesse em aprender a fazer uma boneca Waldorf, eu indico o curso da Nina Veiga pela internet, por meio da plataforma Eduk. O curso é muito completo, muito bem explicado e ela fornece moldes e dicas de fornecedores de materiais. Eu fiz e gostei muito.

Acrescento abaixo o link para o curso da Nina Veiga no Eduk: http://bit.ly/1N6VJRH