Como utilizar a arte para transformar o mundo?

aquarela
*Pintura feita por aluna de escola Waldorf

As escolas Waldorf são reconhecidas por terem a arte e a estética como parte indissociável de sua pedagogia. Muitos chegam a acreditar erroneamente que a pedagogia forma “alunos artistas”. Mas qual seria a razão por trás disso? O que levou Rudolf Steiner a transformar a arte em um dos pilares mais importantes da educação?

Para descobrirmos é importante remontarmos ao período em que ela foi concebida. A pedagogia Waldorf foi criada logo após a primeira guerra mundial, quando uma Alemanha destroçada ansiava por transformações sociais e buscava reorganizar-se no meio do caos. Diversas correntes de pensamento e ideias de reforma surgiram nessa época.

Dentre aqueles que pensavam em soluções e novas maneiras de viver estavam Rudolf Steiner. Por meio de anos de pesquisa, Steiner chegou ao seu conceito chamado Trimembração do Organismo Social que consistia em um Estado cuja vida cultural seria livre de política, autoadministrada e autossustentada. A vida econômica seria baseada no princípio da associação fraterna e livre da influência política nacional ou internacional. O governo, por sua vez, seria autocontrolado e que poderia se rejuvenescer e auto reformar-se de acordo com a consciência da época.

Se essas ideias parecem avançadas, tão necessárias, mas praticamente impossíveis de serem implementadas nos dias atuais, imaginem há um século. Steiner chegou a apresentá-las para os governos da Alemanha e da Áustria em 1917 e não obteve resposta.

A partir daí ele percebeu que a mudança seria possível somente por meio da Educação. E a arte teria um papel fundamental para moldar o homem dessa nova sociedade. De acordo com Steiner, quando ampliamos apenas o intelecto, estamos direcionando o indivíduo para o materialismo.

“A sociedade verdadeiramente humana só pode ser o resultado do pleno desenvolvimento das capacidades de pensar, sentir e querer. Quando o pensamento é desenvolvido, torna-se possível perceber claramente as circunstâncias e imaginar de forma acurada as mudanças positivas. O correto desenvolvimento do sentir capacita as pessoas a perceber como unir a imaginação ao mundo exterior. A força de vontade desenvolvida garante a possibilidade de transformá-las em ações para o mundo. Somente dessa forma é possível desenvolver uma sociedade sadia”, ensina Steiner. Ele conclui que a verdadeira mudança social não seria possível até que um número suficiente de pessoas recebesse uma educação que contemplasse o desenvolvimento do ser humano completo.

Segundo ele, os professores devem formatar a instrução de modo que a criança não simplesmente a receba de uma maneira intelectual, mas que se beneficie da instrução de uma maneira estética.

“Nós não conseguiremos isso se as ideias tocarem apenas o intelecto. Nós podemos fazer isso se, como professores, nos conectarmos aos sentimentos das crianças de diferentes formas, de modo a alcançar a sua expectativa em relação ao assunto e dessa forma preenchê-lo. Você pode atender as necessidades estéticas da criança se você se tiver uma relação conectada aos sentimentos dela. Ao desenvolver primeiramente a sensibilidade, os sentimentos de maneira estética e com bom gosto, podemos direcionar o intelecto humano em direção aos aspectos da alma. Podemos dar às crianças a base para direcionar o intelecto ao espírito desde que pratiquemos o desenvolvimento do querer”, explica Steiner.

E como os professores aprendem a desenvolver o desejo de maneira apropriada? Permitindo que a criança seja artística. “ O mais cedo possível devemos permitir que a criança escute música, veja desenhos e pinturas, mas também permitir que elas participem. Atividades artísticas básicas devem acontecer cedo na educação, senão teremos pessoas com força de vontade fraca”, afirma Steiner.

Também precisamos estar atentos para não oferecermos explicações detalhadas a respeito da natureza, dos animais, etc. Steiner afirma que prejudicamos a experiência estética da criança quando oferecemos um estudo detalhado da natureza, como por exemplo quando “explicamos” o que é um determinado animal, como ele se move, como é seu corpo, seu habitat. Segundo ele, a criança deve formar uma visão geral e inclusiva das coisas para desenvolver seu senso estético.

Sua visão de reforma do Estado pode ser aplicada de forma global. Vivemos em um período de materialismo exacerbado em que muitas vezes a arte e o bom gosto dão lugar a bizarrices e manifestações grotescas promovidas pela indústria cultural, além de um embrutecimento da sensibilidade. Não seria a arte uma resposta para isso? Por que não oferecermos uma alternativa às futuras gerações. Mesmo as crianças que não estejam matriculadas em uma escola Waldorf podem se beneficiar dessas orientações. Pinturas com aquarela, música de qualidade e observação da natureza podem estar ao alcance de todos.

*http://goldenhours16.blogspot.com.br/

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Julho chegou! Atividades para as férias

O post de hoje traz algumas dicas de atividades para as crianças do primeiro setênio, baseadas na pedagogia Waldorf, para fazer nas férias.

Embora sejam simples, muitas vezes esquecemos que as crianças não precisam de muito para ficarem felizes. Nós é que temos a mania de complicarmos as coisas.

Que tal colocar em prática algumas dessas atividades? Mesmo os mais crescidinhos se beneficiarão dessas brincadeiras. Para quem mora no Sul e Sudeste, uma recomendação: não deixe o frio espantar a vontade de sair de casa. É só colocar um agasalho bem quentinho e sair para apreciar as mudanças que a nova estação trouxe para o parque mais próximo.

Os assinantes da newsletter também vão receber um guia com passo a passo de brincadeiras e dicas de locais para visitar em diversas cidades.

 

Práticas Waldorf para Férias

Educamos nossos filhos para o vestibular ou para a vida?

“É preciso deixar a criança, o maior tempo possível, na vivência suave, sonhadora, baseada na imagem, vida, ou seja, o maior tempo possível na imaginação, numa consciência não intelectualizada. Quando permitimos o fortalecimento do organismo infantil mediante o ambiente não intelectualizado, a criança consegue, num momento posterior, assimilar de maneira correta, a cultura intelectualista”, recomenda Steiner.

A metodologia Waldorf segue os preceitos de que o ser humano se desenvolve em setênios. Segundo essa lógica, a criança só começa a ser alfabetizada a partir dos sete anos, ou seja, quando começa o segundo setênio.  Essa aparente demora no processo educacional levanta uma série de questionamentos e não raro ouvimos pessoas dizerem que um determinado aluno “já” tem oito anos e ainda não sabe escrever ou que a escola Waldorf só é boa para a educação infantil, pois não prepara o aluno para a vida acadêmica.

A explicação para esse fato veio do próprio Rudolf Steiner, que fala que a pedagogia Waldorf leva em consideração toda a vida da criança ao ensinar e não somente aquele instante em que a alfabetização acontece. Segundo Steiner, quando a criança começa a aprender a escrever, ela primeiramente desenvolve as formas das letras por meio de alguma atividade artística que traga contentamento interior. A euritmia é uma das maneiras das crianças realizarem esse trabalho.

Steiner afirma que “A razão para nossas crianças aprenderem a escrever e ler um pouco mais tarde é que se nós levarmos em consideração a natureza da criança, ler deve vir depois de escrever. Uma coisa essencial no nosso método educacional é que nós mantemos a vida inteira da criança em mente. Nós sabemos que se apresentarmos à criança alguma coisa quando ela tenha sete ou oito anos, isso deve ser feito de forma que essa coisa cresça com criança, de modo que permaneça com a pessoa em questão quando ela tenha trinta ou quarenta anos, e até mesmo para o resto de sua vida.”

Segundo ele é importante que a criança viva de maneira intensa a sua infância, sem racionalizar o conhecimento. “É preciso deixar a criança, o maior tempo possível, na vivência suave, sonhadora, baseada na imagem, vida, ou seja, o maior tempo possível na imaginação, numa consciência não intelectualizada. Quando permitimos o fortalecimento do organismo infantil mediante o ambiente não intelectualizado, a criança consegue, num momento posterior, assimilar de maneira correta, a cultura intelectualista”, recomenda Steiner.

Antes de colocar minha filha em uma escola Waldorf, também tinha medo de colocá-la em uma instituição que não a preparasse para a vida, que a deixasse em desvantagem quando o momento profissional se aproximasse (hoje já penso bem diferente daquela época e já não tenho a cabeça voltada para o vestibular ou o emprego).

Para sanar essas dúvidas, nada melhor do que conversar com uma ex-aluna Waldorf. Por sorte eu conhecia uma profissional super competente com a qual eu tinha trabalhado e que tinha estudado quase todo o período escolar na Viver Escola Waldorf de Bauru. Ela se graduou em um dos cursos mais cobiçados na USP e seus irmãos, que também estudaram na mesma escola, se graduaram na Unesp (em exatas e humanas respectivamente). Tivemos um bate-papo muito proveitoso. Na época, sua mãe, que era ex-professora Waldorf me deu vários insights sobre o funcionamento da escola e o desenvolvimento do aluno. Saí de lá mais certa do que nunca de ter escolhido a melhor metodologia para a vida da pequena.

Abaixo eu coloco um vídeo que mostra ex-alunos Waldorf e pais de alunos Waldorf que são expoentes nas profissões em que atuam. Vale a pena conferir.

Como criar o boneco ideal para sua criança

As bonecas formam o cérebro da criança do mesmo modo como trabalha um escultor, cujas mãos ágeis, sensíveis, permeadas pelo espírito e pela alma do artista, transformam o material escolhido em obra de arte, em que tudo é atividade plasmadora e desenvolvimento orgânico. A criança contempla a boneca feita de pano, e desta atividade surgem forças formativas em seu interior, verdadeiras forças formativas provenientes do sistema rítmico e atuantes na configuração do sistema nervoso central.

ciranda de bonecas Waldorf
Bonecas Waldorf feitas por pais amorosos durante a oficina ministrada por Nina Veiga no CEW Alecrim Dourado

 

Os bonecos são indissociáveis da infância. São peças que representam muito mais do que um brinquedo. Muitas vezes se tornam o melhor amigo da criança e não raro a acompanham até a idade adulta.

Mas esqueça aquelas bonecas lindas ou “exóticas” se você estiver preocupado com a formação do corpo físico e do cérebro infantil. Tudo o que ela precisa é de uma boneca rústica, que pode ser feita por você mesmo.

Rudolf Steiner nos explica que quando oferecemos à criança no primeiro setênio a boneca feita com um lenço, as forças plasmadoras, provenientes do organismo humano – principalmente do sistema rítmico, ou seja, da respiração e da circulação sanguínea – chegam suavemente ao cérebro para exercer a sua função.

“Elas formam o cérebro da criança do mesmo modo como trabalha um escultor, cujas mãos ágeis, sensíveis, permeadas pelo espírito e pela alma do artista, transformam o material escolhido em obra de arte, em que tudo é atividade plasmadora e desenvolvimento orgânico. A criança contempla a boneca feita de pano, e desta atividade surgem forças formativas em seu interior, verdadeiras forças formativas provenientes do sistema rítmico e atuantes na configuração do sistema nervoso central” afirma Steiner.

E como deve ser feita essa boneca? Nada mais do que um pedaço de pano amarrado na parte superior, de onde surgirá a cabeça, sem qualquer traço fisionômico. Manchas ou pontinhos para marcar os olhos e a boca são suficientes. “Nesta boneca teremos tudo o que a criança consegue entender, e o que a criança também consegue amar. Na boneca encontram-se, de maneira bem simples, as características do corpo humano do único modo que a criança dessa idade consegue apreender”, explica Steiner.

Boneca feita com lenço
A Clarisse já está esfarrapada, mas tem lugar cativo nas brincadeiras da minha filha

De acordo com Steiner, dentro da criança atua uma força plástica e o que ela realmente vivencia pode ser visto mediante a boneca feita um lenço pintado com um par de manchas de tinta. Ele nos ensina que tudo o que provém dos arredores da criança e vem ao seu encontro passa por um processo formativo no seu interior, que inclui a formação dos órgãos.

Já as bonecas finamente acabadas, industrializadas, produzem o efeito contrário no cérebro, que recebe esse estímulo como se fossem “chicotadas”.  “As forças provenientes do sistema rítmico, ou seja, as forças formativas, que provêm dos sistemas respiratórios e circulatório e que configuram o sistema nervoso central, atuam constantemente como se fossem chicotadas. Tudo o que a criança ainda não consegue entender chicoteia o cérebro. Sim, o cérebro está sendo terrivelmente chicoteado, espancado”, adverte Steiner.

Steiner analisa os efeitos negativos desse tipo de brinquedo na formação da criatividade: “Quando a criança ganha uma boneca acabada, impedimos que ela desenvolva a atividade dentro da sua alma. Ela precisará abafar a imaginação tênue que está despertando, a fim de focalizar o seu olhar em detalhes total e esteticamente definidos. Assim interrompemos completamente o processo infantil de criação de vínculos com a vida, pois a atividade própria em seu interior é retida.”

Essas análises de Steiner me levam à minha infância e me fazem recordar das bonecas que minha avó me fazia utilizando uma colcha chenille. As minhas lembranças mais antigas datam de quando eu tinha três ou quatro anos – minha avó morreu quando eu tinha cinco anos – e eu me lembro de olhar aquela colcha dobrada e realmente visualizar um bebê enrolado na manta. Ficava encantada pensando como ela conseguia fazer aquilo.

Essas memórias nunca saíram de minha mente e de todas as bonecas que tive, elas sempre foram as minhas favoritas. Não entendia como minha avó era capaz de fazer aquele bebê, até que há sete anos, em uma viagem a Santa Catarina, eu desvendei o segredo.

Abayomis
Essas abayomis foram feitas por mim e me recordam a minha infância

Aprendi em uma oficina de artesanato em um hotel que essas bonecas na verdade se chamam Abayomi. Elas eram feitas por escravos para seus filhos, que utilizavam pedaços de suas roupas para confeccioná-las. Essa história me emocionou muito e eu pensei nas tias paternas ou o pai de minha avó fazendo essa boneca para ela (sua mãe era italiana).

 

Nessa época minha irmã estava grávida e eu na mesma hora pensei em fazer abayomis pequenas como lembranças de maternidade. Agora eu mesma posso fazer abayomis para a minha filha.

 

Atualmente também temos bonecas de inspiração Waldorf que são feitas de materiais naturais, recheadas com lã de carneiro e que além de trazerem uma sensação táctil muito boa, não afetam a criatividade infantil, pois não possuem rosto definidos.  Para quem tiver interesse em aprender a fazer uma boneca Waldorf, eu indico o curso da Nina Veiga pela internet, por meio da plataforma Eduk. O curso é muito completo, muito bem explicado e ela fornece moldes e dicas de fornecedores de materiais. Eu fiz e gostei muito.

Acrescento abaixo o link para o curso da Nina Veiga no Eduk: http://bit.ly/1N6VJRH

 

 

 

 

Filhos emocionalmente saudáveis

A maneira como nos relacionamos com a criança determina não só os aspectos emocionais, mas afeta também sua saúde. Steiner afirma que tudo o que fazemos perto de uma criança causa uma impressão sobre ela, determinando toda a sua disposição para o desenvolvimento de boa saúde ou de doenças.

barriga

Desde que me tornei mãe há pouco mais de três anos, tenho a oportunidade de testemunhar o milagre da vida. Em um curto espaço de tempo meu bebê, que apenas era guiado pelas suas necessidades básicas vitais, virou uma criança alegre e ativa, com opiniões próprias e desejos.

Sempre soube que os estímulos certos na primeira infância, que vai de 0 a sete anos, eram fundamentais para o desenvolvimento infantil. Mas também me questionava: o que posso fazer para cultivar os germes de um ser humano emocionalmente saudável? Como ajudá-lo a se desenvolver de maneira holística?

Foi quando encontrei a pedagogia Waldorf e a Antroposofia que comecei a ter as primeiras respostas para os meus questionamentos. Segundo Rudolf Steiner – filósofo austríaco e criador da Antroposofia e da pedagogia Waldorf -, entre o nascimento e os sete anos, estão presentes no organismo, de maneira imperceptível, as forças que posteriormente, a partir do sétimo ano, se manifestarão no relacionamento e no contato com o mundo como forças anímicas.

A maneira como nos relacionamos com a criança determina não só os aspectos emocionais, mas afeta também sua saúde. Steiner afirma que tudo o que fazemos perto de uma criança causa uma impressão sobre ela, determinando toda a sua disposição para o desenvolvimento de boa saúde ou de doenças.

Essas constatações me levaram a descobrir um universo totalmente novo, onde verifico que não só o alimento correto, carinho e estímulos físicos bastam para a formação de uma pessoa saudável. Muitos outros aspectos são levados em conta. Detalhes como a hora certa para se começar a andar, quando a criança deve começar a aprender a ler e escrever ou o porquê de lermos contos de fadas para os pequenos, possuem implicações que serão sentidas até mesmo décadas mais tarde.

O que tenho descoberto nesses estudos me fascina e me motivou a criar esse blog. Desejo compartilhar com outras famílias tudo o que tenho encontrado e espero contribuir para essa jornada fantástica que é a de educar um filho para a vida.